AO LEITOR:
 
Nesse trabalho, bem familiar e com resquícios históricos, organizo minhas lembranças, visando deixar para minha esposa, I. de C. Guimarães; para meus filhos: I., L. e E.; meus netos: C. e L.; demais familiares e pessoas amigas de nossa antiga Queluz de Minas, atual Conselheiro Lafaiete, a lembrança de um passado modesto, mas honrado.
Meu pai, Romeu G. de A., falecido em 1968, era tradicionalista, possuía um caráter independente, era ligado à facção política do Dr. Campolina e do Dr. N. de Queiróz; foi amigo e compadre do Dr. Antônio C. de A. Andrade; viveu para a sociedade e seus familiares que abraçavam várias famílias: Guimarães, Albino, Souza, Brandão, Albuquerque, Braga, Seabra...
Muito agradeço a ele e à minha saudosa mãe, Adélia I. de A. falecida em 1939, com apenas 56 anos de idade. Jamais esquecerei o carinho dos queluzianos nessas ocasiões especiais!
Tendo em mãos um acervo de papéis escritos por meu pai, achei oportuno valer-me deles para escrever um livro, aproveitando o lazer dos meus anos de aposentado e como forma de preservar a memória e identidade da região e homenagear essa nossa gente.
Espero que apreciem.
 
Fúlvio de A. Guimarães
Belo Horizonte, março de 2008.
POPULAÇÃO ANTIGA DE QUELUZ
Não se pode generalizar, mas a população mais antiga do município discriminava as demais crenças. Protestantes e judeus eram considerados inimigos de Cristo, os espíritas tinham parte com o demônio e os ateus eram homens sem alma, salvo honrosas exceções.
Eram mais considerados os sírios e libaneses (que não se consideravam turcos, assim justificando-se. Educados e habilidosos, comerciantes, quase sempre, tinham seu “quê” de fenícios. Não foram estes que propagaram a idéia dos monstros marinhos - para os outros?)
Os homens eram, alguns, boêmios, violonistas e sentimentais. Estendiam-se por toda parte, apreciados e admirados pelo povo mais simples da cidade. As valsas não mais escandalizavam. Eram apreciados também os cavaquinhos, flautas e até a ocarina (instrumento de barro).
O vigário Padre Américo A. de C. Tait’Son, saía de sua residência, próxima à Santa Casa, em direção à Matriz de Nossa Senhora da Conceição, à Praça Barão de Queluz, onde ficava a casa de meus pais.
Às vezes, duas loucas: “Bororó” e Salvina, costumavam importuná-lo. Ao verem soldados, acorriam para a casa de minha mãe, à praça mencionada e só a ela obedeciam, a quem visitavam constantemente. Os policias também não as importunavam.
Os juizes de paz educavam a população e apaziguavam a todos.
Graças à Deus, a fé em Jesus e São José era silenciosa. Não havia alto-falantes – somente o sino soava no momento adequado.
O som, ouvido a duas léguas, era muito bem tolerado, assim como a ladainha pela madrugada.
Houve tempo em que soava o sino, a banda tocava ao mesmo tempo, o alto-falante funcionava e o vigário pregava, além dos foguetes...
Quando algum forasteiro chegava para ficar, perguntavam: “Ele vai à missa?”...
Certa vez, o badalo do sino desprendeu-se lá de cima, caindo na terra à frente da Matriz. Felizmente, ninguém estava por perto.
Vovó Marianna era venerada pela sua nora Adélia, minha mãe, mesmo depois de falecida e de quem tinha premonições (ou precognições, como diz o padre Quevedo).
Era considerável a grande devoção a São José, santo a quem Adélia sempre recorreu.
Vovó Marianna praticava a hidroterapia (sistema Kneipp) e recorria ao “Chernoviz” (um repositório de plantas da flora brasileira da época) e também ao formulário (outro volume). “ O grande benemérito da humanidade sofredora. Com muita razão merece este título o grande padre católico monsenhor Kneipp, pároco de Woerishofen, na Baviera, que atrae hoje a atenção de uma grande parte do mundo. Começou ele sendo humilde tecelão, na Suábia. Com muitas economias e a custo poude estudar para realizar a sua vocação eclesiástica, mas quando esteve para satisfazer o seu maior desejo e tomar a segunda ordem de presbítero (cura por meio de água) e aplicando a si mesmo, curou-se, adaptando ao seu caso e aperfeiçoando o processo, instituiu o seu “SISTEMA KNEIPP”. 
Romeu compôs músicas, executou peças ao piano com sua filha Dagmar (a quatro  mãos); participou no cinema; fez versos; acompanhou a política partidária de José C. da S. Campolina, e principalmente, foi jornalista com amizades em várias cidades mineiras, na cidade do Rio de Janeiro e Estado do Rio.
Foi Juiz de Paz, Promotor de Justiça e Juiz de Direito, além de Provedor do Hospital de Queluz.
De 1905 a 1912, foi Amanuense na Câmara Municipal de Queluz, participou dos três clubes formados na cidade: Clube dos Democratas (1905), Clube Castilho Lisboa (1907) e Sociedade Euterpe Queluziana (1920).
E os caricaturistas – ou cartunistas – ou chargistas? Raul Pederneiras, Borjalo...
Iantock dizia: “Lá nas hiperbólicas paragens endêmicas há um hidrópico tesouro.”
Pensávamos que ia abandonar a sua profissão para minerar...
E os aviadores? Sacadura Cabral, Gago Coutinho, o Jahu (avião) de Ribeiro de Barros, Lindeberg.
Os boxeadores: Jack Dempsey, Gene Tunney, a vítima Érnie Shaf, Joe Louis, Luiz Angel Firpo, Primo Carnera que disse: “Depois de um bom prato de macarrão, não temo a ninguém.” Foi derrotado. E uma inesperada derrota, em 1926, de Dempsey por Gene Túnney...
Numerosos “Baêtas”, vindos de vários pontos-fazendas do município, enchiam nossa casa da Praça Barão de Queluz, ponto de encontro.
Lá se reuniam Pequita e Benedicto Barbosa – Thompson ou “Tonzinho”; “Zildinha” e seu namorado, o “Argentino”, a de Lourdes, Zezézinha, Quinote (político em Itaverava), Lausane, Antonita e seus pais, Bernardo Bernulpho B. Neves e Honorina (Norica), Lolita, Melita, Geraldo Carreira, Luiz, Netinha.
O Joaquinzinho, figura importante do “Chuta-Vento Futebol Clube”, era tipógrafo e no jornal descrevia as partidas do jogo, terminando sempre: “... e Baêta corta...”  pois era sempre ele a cortar a jogada...
Seguindo para os lados dos “Furtados”, atravessando a casa que chamávamos “do Quincas Lourenço”, conhecemos a Neizinha, Zilda, Zozola e Lalá, esta namorava o Dr. Zezé na sua Baratinha (carro).
Seguindo, vinha a família do Asdrúbal do N. Sobrinho e dona Elvira (o Dudu Nascimento), pais do Alfredinho, e o grande pé de jaca. (...)   
Os Baêtas ainda se estendiam pela antiga rua Direita, subindo para o Santo Antônio.
Dona Olga morou na rua Afonso Pena, em prédio alto, próximo ao Biu (Argemiro de A.), do cartório, que passou depois para a sua irmã, Irene de A.
Sr “Lalão” – Alexandrino C. de Queiroz – D. Maricas de Queiroz, viúva de Alexandrino (Lalão), faleceu com 59 anos, em 05 de agosto de 1941, deixando os seguintes filhos: Eulália, Egar (nos meios futebolísticos, o “galo véio”) e o Elpídio de Q. (“Peixinho”), que, na Chapada, caminho do Morro da Mina, foi proprietário de uma importante oficina de ferreiro, antes pertencente ao senhor Norberto Rocha.
Lembro-me muito da “D. Maricas dos Doces”, da qual era freguês e das suas brôas de amendoim e canudos, substituída pelo Alvim.
O taboleiro de madeira era grande e tinha grande variedade de quitandas (em Queluz, quitanda não era sinônimo de verdura, mas de doces...).
 
AS QUATRO CASAS
Romeu G. de A. possuía quatro casas só para uso da própria família:
A Casa do Romão, na chamada “Chácara do Romão”, próximo à linha da Estrada de Ferro Central do Brasil, construída com a ajuda de profissionais pedreiros e carpinteiros amigos, no Triângulo, com uma pequena nascente de água a que dava o nome de “gruta”. Romão era o nome de um morador próximo do local, casado com a “Siá Pichinha” (D. Maria Brígida).
A Chácara da Fonte Grande, com canteiro de flores, uma varandinha de um metro e vinte por oitenta centímetros, com amplo quintal, onde havia um grande pé de jambo, outras frutas e espaços de sobra para as vaquinhas que serviam o leite para as crianças, construída por familiares e amigos e onde residiu com a família grande parte de sua vida.
A Chácara do “Stand”, a quatro quilômetros da cidade, passava pelos “Pinheiros”, rua Benjamin Constant. Lá criou gados, plantou inúmeras árvores frutíferas, montou uma olaria que produziu tijolos e telhas sonoras, as quais suportavam, com facilidade, o peso de uma pessoa. Este sítio foi adquirido do tio Alfredo A. de A. Cyrino pela quantia de 4:000$000.
A Casa da Praça, que ficava na Praça Barão de Queluz, número cinco, depois 91, próxima à Matriz de Nossa Senhora da Conceição, no ponto histórico da cidade.
Esta casa pertenceu ao avô de Romeu G.A., o senhor Francisco C. de A., depois ao Sr. João L. de Albuquerque, pai de Romeu e que era conhecido pelo apelido de “Neném João”.
Maria de Albuquerque (irmã de Romeu) e seu marido, Jarbas Guimarães, herdaram a casa. O casal vendeu a propriedade, reservando uma parte do terreno que, posteriormente, serviu para a construção da atual Casa Paroquial.
Romeu comprou a propriedade restante, pela quantia de três contos de Rés (3:000$000), conforme escritura de agosto de 1920:
(...) Termo de abertura assinado pelo Mmº  Juiz  de Direito Hamilton T. De Paula.
       "Escritura de compra e venda paga e quitação de bens de raiz, que o faz o  Sr. Romeu G. de A. ao sr. Jarbas Guimarães e sua mulher D. Maria de A. por 3.000$000, na forma abaixo. Data 7.8.1920. Vendedores residentes em Itajubá - procurador José de Souza Salgado – herança havida do Coronel João L. de A. e Mariana G. de A., sitos n/ cidade à Praça Barão de Queluz, nº 5 ao lado da Matriz – confrotação pela frente com a dita praça: pelos fundos com a rua Castilho Lisboa; pelo lado direito com a casa e terreno de Affonso N. P. e pelos fundos com a casa e terreno de Domiciano E. de N. e seus filhos. Frente 29 metros – fundos C. Lisboa 61,5m sessenta e um metros e cinco, ficando, portanto, os outorgantes vendedores com o restante do terreno, ou seja, 15 metros de frente com os fundos correspondentes até a rua Castilho Lisboa, junto à divisa de Afonso P., divisando a casa ora vendidos, com as seguintes divisas: Pela frente com a dita praça, fundos com a rua Castilho Lisboa; lado esquerdo com Domiciano E. de N. e filhos, e direito com o terreno ou lote reservado dos vendedores, pelo preço e quantia de 3:000$000 que já receberam em dinheiro do que dão a quitação, transmitindo ao outorgado a posse, jus, domínio, direito  e quitação, especialmente pela cláusula  Constituti, etc. Pela presente escritura ficam liquidados todos os seus negócios relativamente à dívida de Romeu G. de  A.
Notas:
 1)Coletoria Estadual de Queluz, assina como Coletor Estadual, J.(Juca) Albuquerque. Testemunhas finais: Antônio Furtado de Mendoça e Olegário de Souza Valle. Tabelião Francisco de Paula Furtado de Mendonça – p.p. José de Souza Salgado. Assinado – Romeu Guimarães de Albuquerque. Transcrito à p. 71.”
 
 2) Na pág. 71 – Na procuração de Jarbas, J. de S S., consta ele como Diretor do Instituto D. Bosco e sua mulher Dona Maria A. G., residente nesta cidade de Queluz. Data:  5.9.1918.

 

O FUTEBOL
A casa em que morava o senhor Avelino Lana, casado com minha tia Olímpia, que ficava situada na rua dos Barrancos (Barão de Suaçuí), era uma casa modesta com um bom quintal cheio de frutas.
Em um dos quartos guardava-se todos os apetrechos necessários ao Queluziano Foot-Ball  Club (assim se escrevia), pois foi, por uns tempos, o tio Avelino, o zelador do clube.
Utilizava-se a bola nº 5, com seus gomos de couro, que continham a câmara de ar de borracha com bico saliente, no qual se colocava o bico da bomba que a enchia, amarrando-se depois e dobrando-o para dentro do couro.
Passava-se um cordão pelos vários furos até fechá-la completamente.
Havia várias delas e várias camisas de listas brancas e pretas.
E nós, primos-sobrinhos, encantados com aquele quarto repleto de novidades...
Atravessando a rua para o lado oposto, o vasto campo, maior do que o comum, tendo o pasto da Fontinha ao lado cujo caminho descendente levava à dita fonte pequenina. Lá embaixo, as lavadeiras trabalhavam.
Do lado de um dos “goals” viam-se as árvores do pomar da família de tio Domiciano Noronha, que depois mudou-se de lá.
No lado do outro “goal”, estava o quintal e casa de Augusto D. de Souza e família. Em dia de jogo a meninada seguia os seus ídolos do esporte bretão.
O “Pelado” barreira intransponível, o Olimpinho que, da extrema direita, avançava velozmente, em direção ao “goal” adversário; O Vassourinha, conforme diz o nome, varria o adversário qual o “Garrincha” da época. O Pedro Arges, de Congonhas...
Devo arriscar mais alguns nomes (peço que me corrijam se errar): Belisário, José Guimarães, Mário de Oliveria de Santana, o Paulo Rodrigues – dentista, João Perdigão, Jangada, Cahito, Antônio Bandeira, Pituca, Balinho, Nadinho, Iveraldo, Alemão, Zé Broinha, Zé Pio, Romeuzinho, Helmar (Marreta), o Laporte - goleiro do Queluziano - que fazia defesas imediatas, seguidas. O profissional de quem esperávamos grande futuro: o Carlitos e seu irmão Cid Guerra que brilharam com o Madeira e outros no “Chuta-Vento Footbal Club” que derrotou o Santanense.Depois tivemos o Fogosa, o Nublina e o Tião.
Em 1942, derrotaram o Cruzeiro de Belo Horizonte por 3x2, já com o nome de Meridional Esporte Clube.
Não podemos esquecer do famoso Aldomar Baêta, o goleiro da mão grande!