UMA REFLEXÃO: ICONOGRAFIAS OU ICONOFAGIAS?

Iconofagia do grego eikon, imagem, e phagein, comer/devorar

 

As informações contidas em qualquer imagem podem apresentar um teor construtivo ou destrutivo a depender do cenário onde elas surgem e da forma como são montadas em sites, jornais, revistas, museus, exposições  e publicações nos seus mais diversos formatos

 

Uma vez que estas imagens trazem algum valor elas sustentam vínculos entre o homem e suas raízes culturais e históricas, porém quando não expõem nenhum tipo de valor podem mostrar o esvaziamento dos valores de referência de uma cultura.”(1)

 

Iconofagia significa: “corpos que devoram imagens” (2)

 

Eu arriscaria ir mais longe: corpos que também são devorados pelas imagens... uma vez que a relação identitária se estabelece de forma especular

O tratamento das imagens postadas exige, hoje em dia, um esforço maior por parte dos editores e curadores

Em períodos onde os objetivos históricos são usados para impor um ritmo com finalidade comercial, política ou midiática, o uso das imagens pode facilitar ao sujeito a aproximação dos corpos como “comum/unidade” ou fragmentá-lo como um sujeito que olha sem reconhecimento e sem pertencimento

Criam-se massas em deformação e uma lógica esquizoide se instala onde as identidades e os corpos sofrerão mais ainda com a sua condição de ser faltante

Imagens, fotografias de lugares, ruas, casas, trajes e faces das pessoas do passado são usadas para redefinir as políticas locais e garantir a sucessão dos poderes entre aqueles que participam da cena social

É preciso ter cautela com o passado e com o presente

Eles se abraçam e se protegem mutuamente

Não temos como definir os sentimentos pessoais nem mesmo de nossos parentes próximos, que dirá invocar sentimentos pessoais daqueles que já partiram desta vida

A cena obscena, aquela “além da cena”, aponta o imaginário de quem manifesta a “sua opinião” ou a “sua percepção” sobre a imagem do outro indivíduo que já se foi ou de cenários de outrora

Surgem as “caricaturas”, as “poses”, as “encenações” ... no lugar do Folclore e da identidade aparecem corpos estranhos e descoordenados. Sem ritmo e sem verdadeira identidade

Uma nova imagem é, então, constituída, agora, por pertencer a uma exposição apenas como objeto

A cultura cria a imagem sobre a imagem...

Neste cenário onde o rito, o ícone, o símbolo tornam-se obscuros permeando cenários inventivos as curadorias importam

Diferentemente das autobiografias, as narrativas não devem avançar no território das ciências

O estudo da História merece ter como base o zelo, os fatos e o respeito pelos fatos

Opiniões não definem o passado descrito por um ou dois historiadores

Visões, pontos de vista, testemunhos e organizações autorais sobre diferentes temas podem e merecem serem feitas por qualquer curador que assim o queira fazer

Saem várias narrativas e pluraliza ainda mais o cenário de confusão por pouca reflexão e por pouca honestidade histórica

O mérito da obra não está no número de cópias vendidas, nem nos likes e nem mesmo no prestígio alcançado em um único ano e nem mesmo nos penduricalhos que se criam para homenagear seus pares

Quando não possui lastro e representação, medalhas, brasões e roupagem se transformam rapidamente e a imagem vira caricatura esvaziada de sentido

A pose não é a postura

A postura precisa ser real

E a realidade maltrata tanto um quanto o outro no cenário da história e das memórias

Não há escapatória: ao desenhar um cenário ele possui vários ângulos e perspectivas e todas elas são reais e imaginárias...

Entre a imagem, o imaginário, e a imaginação é preciso respirar, tomar fôlego, pesquisar, agregar mais e mais fontes primárias, cruzar dados, organizar com calma antes de lançar opiniões sobre as famílias e os seus familiares

A representatividade é coisa rara e cara (nos dois sentidos da palavra)

A responsabilidade de “re/apresentar” aumenta a cada dia em que vemos o quão pouco foi preservado sobre a nossa história e memória

Mesmo quando os antigos  chegavam a falar e a alertar em suas publicações sobre a importância do abastecimento da água em uma cidade, a importância do ensino secundário para todos, a importância sobre a preservação da memória dos povos originários, a importância do repasse de nossa civilidade e de nosso amor à Pátria, mesmo assim... os fatos não se fecham e os processos se perdem na linha interrompida do tempo gestor

Nunca foi tão importante a figura de um curador e historiador

Nunca foi tão importante o caráter de isenção e respeito

Atualmente além de corpos cansados e massacrados poderemos encontrar corpos equivocados, iludidos e perdidos em diálogos sem sentido

O direito perde

Os deveres não são incorporados passando a ser mutantes

O sentimento de amor à Pátria se esvai

O hino não tem mais letra que canta junto com a melodia

A voz fica feia e desafina quando canta

E a harmonia?

Perdida...

 

1-Fonte: https://designculture.com.br/iconofagia-parte-01-voce-sabe-o-que-e-iconofagia/

2-Fonte: https://revistas.usp.br/matrizes/pt_BR/article/view/201627/186214